Sobre o Artesão

Eu me formei em Gastronomia duas semanas antes da pandemia de COVID-19 estourar. Trabalhava em bar e em hamburgueria, fazia trabalhos de bartender, e aí fechou tudo, você se lembra como foi. De uma hora pra outra não tinha mais bar, não tinha mais hamburgueria e eu estava sem dinheiro.

A ideia de sair dessa foi da Alê, minha então namorada, que é formada em Moda: comprar uma máquina de costura e fazer jaleco pra enfermagem. Minha mãe é enfermeira e se animou com a ideia, se tornando minha primeira investidora (obrigado, mãe! ❤️).

A Alê me ensinou a costurar do zero, começando costuras no papel, sem linha, só pra eu pegar o ritmo do pedal, das mãos e da máquina em si.

Eu comecei fazendo paninhos de prato e jogos americanos. Junto com isso a gente começou a fazer máscaras: algodão tricoline para a máscara, TNT para filtros trocáveis e elásticos cortados e amarrados nas pontas para prender nas orelhas.

Eldom e Alê cortando tecido estampado sobre a mesa da sala para fazer máscaras, em 2020
Eu e a Alê cortando tecidos para máscaras na mesa de casa, 2020. Eu tinha acabado de cortar e amarrar as pontas de mais de 200 elásticos, daqueles roliços.
Pilha de filtros de TNT preto cortados, ao lado de uma tesoura e de uma máquina de costura industrial, de madrugada
A Alê tinha passado a tarde e a noite cortando esses filtros, enquanto eu costurava máscaras. Aqui era a reta final: costurar os filtros para ficar fácil de trocar depois.
Seis panos de prato brancos com barrado estampado de girassóis e regadores, sobre uma mesa de madeira
A primeiríssima encomenda depois que aprendi a costurar: paninhos de prato. Naquela época o ateliê ainda se chamava Casa di Pano, e fui eu que fiz!

Eu as doava e avisava que quem pudesse ajudar com o custo do material seria bem-vindo. As pessoas foram generosas de um jeito que eu não esperava: dava pra comprar os materiais e ainda sobrava um pouco pra ajudar a gente a atravessar o mês!

Sacola de papel kraft amarrada com barbante, com um bilhete escrito à mão preso por um clipe: Obrigado por estarem aí por nós, estamos aqui por vocês!
Fizemos várias dessas para os enfermeiros e médicos do hospital que minha mãe trabalhava. Cada sacola ia com uma mensagem de apoio aos profissionais que foram a linha de frente contra aquela doença terrível. Algumas poucas sacolas depois, minha mãe começou a trazer mensagens deles de volta, em bilhetinhos no mesmo formato. Foi lindo!

Nos hospitais faltava tudo: máscaras, agulhas, seringas, material básico. Meu sogro, que é tecelão, foi considerado com trabalho essencial porque produzia máscara hospitalar.

O Artesão nasceu no meio disso.

A mãe do Eldom, de uniforme azul de enfermagem, sorrindo e segurando a sacola de máscaras que vai levar para o hospital
Minha mãe levando as máscaras pro hospital. Ela é enfermeira, e foi a primeira pessoa a investir no meu negócio. O primeiro motivo de eu fazer máscaras era proteger ela.

A máquina que não bordava imagem

Depois do jaleco veio outra ideia da Alê: uma máquina de bordar, pra personalizar as peças. Minha mãe comprou uma Brother BE815L; uma caseirinha. É a mesma máquina que está aqui até hoje!

Máquina de bordar Brother Innov-ís BE815L, branca e azul, com o braço do bastidor encaixado, sobre a mesa do ateliê
A Brother BE815L que minha mãe comprou em 2020. É a mesma que está aqui até hoje.

A gente colocou uma imagem nela, animados, e a máquina não bordou nada. Foi assim que eu descobri que existia uma coisa chamada matriz, e eu aposto que é algo que você tem que explicar pros seus clientes o tempo todo, não é mesmo? 😂

Numa aula em uma loja de tecidos eu perguntei se dava pra aprender a fazer matrizes. A professora me mostrou um elefante, um desenho simples, em rippled, e disse que não, que aquilo ali era complexo demais e que eu ia levar umas três horas só pra fazer aquele bichinho. Mal sabia ela que eu sempre fui um nerd, e, pode parecer clichê, mas eu adoro um desafio.

Dias depois, uma amiga da Alê pediu uma toalhinha com um leão em cima de um skate. Procurei em tudo quanto é lugar e não existia. Baixei um programa e fui atrás. Passei noites naquilo. Saiu um garrancho, com umas 60 trocas de linha que não precisavam existir, mas funcionou: a peça foi bordada e vendida por R$ 50. Eu ganhava R$ 100 por doze horas de bar. Ali meus olhos brilharam. Tinha a possibilidade de eu empreender, que era o que eu sempre quis; e melhor ainda, trabalhando de casa, no meio da pandemia.

Prévia da matriz do leão de skate: leãozinho de capacete roxo, joelheiras e cotoveleiras azuis, em cima de um skate
O leão de skate, 2020. Levei dias pra digitalizar essa matriz, e a Alê levou horas pra bordar. Tinha mais de 60 trocas de linha que não precisavam existir; não preciso dizer mais nada! 😂

O mercado que eu encontrei

A primeira venda de matriz que eu vi na vida foi um pendrive. Cem arquivos por cem reais, um pacotão juntado de grupo de WhatsApp e de Facebook, vendido por gente que também estava tentando ganhar a vida e não tinha certeza sobre a qualidade do que estava ali dentro.

Umas funcionavam. Outras quebravam agulha, franziam o tecido e deixavam qualquer artesã achando que o problema era ela.

Eu e a Alê mesmo, perdemos uma carteira que estávamos aprendendo a fazer, pois uma matriz do Mike Wazowski do Monstros S.A conseguiu a proeza de rasgar courino, acredita? 😂

Depois do leão, as duas primeiras matrizes que eu fiz para outras pessoas foram de graça, pra quem pediu ajuda em grupo na internet. Elas precisavam, eu tinha tempo e quis ajudar. Nem passava pela minha cabeça que dava pra cobrar por aquilo.

Foi uma delas que voltou pedindo outra e falou pra eu cobrar. Essa foi a terceira que eu fiz pra fora e a primeira que alguém me pagou: R$ 5, no dia 16 de junho de 2020. Esse virou o aniversário do Artesão, porque foi ali que ele nasceu de verdade. Eu tinha acabado de descobrir que dava pra viver de matriz de bordado!

Eu aprendi pelas mãos dos outros

Não tem nada de autodidata iluminado nessa história. Eu aprendi porque as pessoas tiveram paciência comigo.

Teve uma cliente que pagou R$ 15 num brasão e recebeu umas quinze versões. Ela bordava cada uma, me mostrava onde tinha dado errado, e eu ia lá e refazia. Hoje esse trabalho custaria dez vezes mais, e ela gastou tecido e linha à beça testando. Multiplica isso por dez e você tem uma ideia de quanta gente foi importante pro meu desenvolvimento. Sou grato a cada uma delas, que no fim das contas viraram clientes. Vocês sabem quem vocês são! ❤️

A Alê virava a noite comigo, três, quatro da manhã, bordando teste pra eu poder passar a mão no tecido: sentir a diferença entre um ponto cheio e um tatame, o que é um ponto salientado, como consertar contorno, como usar compensação de repuxo e ponto de suporte. Cada detalhe dolorosamente testado, de novo e de novo, e sacolas de tecido descartados com testes antigos ainda estão guardadas em algum lugar do ateliê!

Armário aberto com sacolas de tecido de teste guardadas; em destaque, um paninho laranja bordado com cerca de doze rostinhos diferentes
Sacolas de teste. Esse paninho laranja foi puro teste de ponto e sobreposição: eu queria saber se era seguro bordar pontos sobre pontos, até quanto eu podia fechar a costura, até quanto podia abrir até parecer falhado... foi muita ciência!

E teve dois profissionais que me adotaram sem cobrar nada. Um me explicou por que o contorno tem que ser desenhado mais pra dentro da peça, e por que o repuxo estraga o que parecia certo na tela. O outro, quando decidiu se aposentar, entrou ao vivo na aula dele e falou pros alunos que estava passando a clientela dele pra mim. Nunca me pediu nada em troca. Até hoje eu não sei direito o que eu fiz pra merecer aquilo, mas sou eternamente grato. Obrigado, Eldeson e Zé Messias! ❤️

E é por isso que eu escrevo guia de graça, respondo no WhatsApp com paciência e explico o que normalmente ninguém explica. Não tem estratégia nenhuma nisso. É que eu aprendi assim: ninguém é alguém sozinho; parece frase de efeito e talvez de fato seja, mas é verdadeira!

O Artesão hoje

São mais de cinco anos de estrada e mais de quinze mil matrizes entregues.

Hoje eu trabalho no meu escritório, no meu próprio negócio. Pra quem virava doze horas atrás de um balcão fazendo drinks ou montando lanches pra levar cem reais pra casa, isso ainda é estranho de falar em voz alta.

Escritório do Eldom: mesa preta com monitor curvo em braço articulado, teclado retroiluminado, microfone e cadeira de malha
Minha casa dentro de casa. Aqui é onde eu trabalho, e onde eu jogo, meu maior hobby. Montei esse computador peça a peça ao longo dos anos!

A Alê continua comigo nisso. Ela cuida das redes, filma os vídeos e chega com ideia de conteúdo quando eu estou de cabeça enfiada numa matriz. Os desenhos são meus, mas o Artesão tem muito da mão dela.

O que eu vendo é feito à mão. Artesanal, como o nome já diz: desenhado à mão, cada elemento do bordado, do ponto de suporte ao contorno final.

Toda compra vem com todos os formatos (.PES, .JEF, .DST, .XXX, .EXP e .HUS) e todos os tamanhos que aparecem na descrição; o download chega na hora e o arquivo é seu pra sempre, pra bordar quantas vezes quiser ❤️

E se você travar em alguma coisa, me chama! Te ajudarei até o bordado sair do jeitinho que você imaginou.

Mudar o mundo, uma matriz por vez

Essa frase está no meu "missão, visão, valores", que talvez você não tenha visto (sei que ninguém vê, mas é bom ter 😂😂).

Isso pra mim é real, e eu vivo por isso. Abaixo, a história de uma cliente que virou amiga, a Isa:

A Isa se aposentou depois de 35 anos trabalhando em recursos humanos e resolveu virar bordadeira. Ela chegou aqui bem no começo, quando eu também estava aprendendo, e queria uma matriz para a empresa de um amigo dela, para presenteá-lo. Com o tempo foi me pedindo coisas mais complexas, que demandaram muito estudo e tempo.

A gente acabou crescendo junto, cada um se especializando do seu lado. Hoje ela faz enxovais de luxo para clientes de alto padrão, como influencers, apresentadores, cantores e seus familiares. Ela tem uma máquina industrial do preço de um carro, escolhe as matrizes dela comigo, e o quarto presidencial da maternidade mais sofisticada de São Paulo é praticamente sua segunda casa.

Virou amiga de verdade, dessas de estar no meu casamento. O caminho é dela. Eu só tive a sorte de estar junto no comecinho.

Te amo, amore ❤️

Alê, Milena, Isa e Eldom juntos e sorrindo, ao ar livre, no dia do casamento
Da esquerda pra direita: a Alê, a Milena, a Isa e eu, no nosso casamento. Elas vieram de São Paulo até o local da festa, em Nova Odessa!

Tem mais histórias de clientes que vieram com problemas e dúvidas e estão comigo até hoje, há anos: a Simone, que é brasileira e mora na França, que era doméstica e bordava, e que chegou aqui achando que o problema era ela, quando na verdade o problema era o arquivo de outra pessoa, e hoje é artesã em tempo integral; a Quitéria, que veio sem saber absolutamente nada e hoje faz trabalhos majestosos; e uma mais recente, a Cleide, que está começando no bordado, aprendeu muito com o Guia de Bordado do Artesão (gratuito no site!), se apaixonou pelo resultado da toalhinha e está feliz da vida, vendendo e construindo seu negócio do zero.

Tem também a Eloá, que já vendia bordado no ateliê dela e já comprava matriz de outro lugar quando me achou. Ela escolheu ficar por conta do atendimento e da qualidade. Corta para os dias de hoje, e ela é uma especialista nos puxa-panos (projetinhos do site, dê uma olhadinha!) e virou amiga de casa, dessas que chamam a gente pro aniversário da filha ❤️

Essas histórias se repetem todos os dias, em maior ou menor grau, e eu amo todas elas!

E é isso. O Artesão somos todos nós, artesãos e artesãs, que ganham a vida decorando o mundo entre linhas e tecidos.

Eldom com o capuz da toalhinha de ursinho na cabeça e a língua para fora, segurando uma toalhinha de coelho numa mão e uma de panda na outra
Eu, logo depois de gravar um vídeo sobre os primeiros rostinhos lúdicos que fiz para o site. Mal sabia eu quão especial essa linha acabaria sendo!

Ao mundo, meu coração, e a vocês, meu muito obrigado ❤️